Relatório denuncia 'negócio' em acordo para pagamento da dívida de Angola à Rússia
- font size decrease font size increase font size

A Corruption Watch e a Associação Mãos Livres anunciaram, nesta terça-feira, ter novos dados sobre o alegado envolvimento de figuras do regime angolano, incluindo o Presidente, num contrato que terá lesado Angola em mais de 700 milhões de dólares.
Com base nos novos dados, que constam de um relatório das duas organizações, activistas anticorrupção angolanos entregaram hoje uma queixa na Procuradoria-Geral da República em Luanda, disse à Lusa o advogado David Mendes, um dos denunciantes.
Em causa está um acordo para restruturar a dívida de Angola à Rússia que data dos anos 90 e que terá beneficiado várias figuras do regime e intermediários.
"Como partes centrais do contrato estiveram Pierre Falcone e Arcadi Gaydamark", dois empresários envolvidos no escândalo Angolagate, sobre venda ilícita de armamento francês a Angola nos anos 90, um caso julgado em 2009 em França, refere um comunicado da organização anticorrupção com sede no Reino Unido e da Associação Mãos Livres, defensora de direitos humanos, composta por advogados e com sede em Luanda.
Angola entregou à Rússia 'notas promissórias' no valor de 1,5 mil milhões de dólares, que tencionava pagar ao longo de 15 anos, mas a Rússia envolveu no negócio a intermediária Abalone Investments (constituída por Gaydamark e Falcone) que viria a comprar essas notas à Rússia a metade do preço, com pagamento durante sete anos, refere o comunicado.
Luanda, no entanto, pagou à Abalone os 1,5 mil milhões de dólares para liquidar as 'notas promissórias', pagamentos que eram provenientes da petrolífera estatal angolana, Sonangol.
Queixa idêntica à entregue hoje em Luanda foi apresentada na passada sexta-feira em Berna, na Suíça. Segundo o relatório da Corruption Watch e da Associação Mãos Livres, as transacções envolveram instituições financeiras suíças.
"O sistema bancário suíço permitiu que este dinheiro fosse roubado de um dos países mais pobres do mundo e não é tarde demais para a Suíça investigar adequadamente todos aqueles que fizeram com que isso acontecesse e procurar a sua restituição", disse David Mendes.
Com base no relatório divulgado pela Corruption Watch e pela Associação Mãos Livres, o negócio terá beneficiado o Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos em 36 milhões de dólares, enquanto cerca de 38 milhões de dólares terão sido distribuídos por quatro outros altos funcionários públicos angolanos.
David Mendes explicou à Lusa que este caso surgiu na sequência do Angolagate e referiu que na quarta-feira dará entrada na Assembleia Nacional de Angola uma petição a requerer que seja constituída uma comissão de inquérito para investigar o papel do presidente angolano neste caso.
Fonte: Lusa