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Dos cinco aos três

Por Hélio Bernardo Lopes /
Publicado Friday, July 23, 2010

Correm por aí, pelo seio da nossa sociedade, críticas fortes e permanentes ao designado Modelo de Bolonha, supostamente destinado a uniformizar os cursos de licenciatura e de mestrado nos países membros da União Europeia. Críticas com algum fundamento, muito em especial as que salientam que o referido modelo se destinou, por igual, porventura primacialmente, a cobrar propinas nas universidades, à custa da criação de mestrados pagos a peso de ouro, ao mesmo tempo que se baixavam os gastos públicos com as licenciaturas, agora reduzidas, em geral, a três anos de duração.

Como tudo o que tem vindo da União Europeia, com a notável exceção das vagas de dinheiro iniciais, conseguidas, em todo o caso, com a destruição de parte do tecido produtivo existente e com perdas notáveis de soberania, o resultado foi, no mínimo, muito mau, acabando por levar a discussões diversas e fortemente criadoras de desconfiança social muito variada.

Ora, um dos aspetos que vêm sendo referidos, sobretudo desde há um tempo a esta parte, é a diferença de qualidade que, supostamente, terá de existir entre um curso de três anos e um outro de cinco. Bom, em si, e como argumento, esta consideração vale simplesmente nada.

Em primeiro lugar, acontece que antes dos cursos serem de cinco anos eram de seis. Quando eu entrei na universidade, destinado a cursar Engenharia Civil, a duração dos cursos era de seis anos, em geral, constituídos por disciplinas anuais e quase nunca semestrais. Só mais tarde, na sequência das reformas produzidas por Veiga Simão, os cursos de licenciatura passaram a ser de cinco anos, tendo passado, no entretanto, por uma fase de adaptação com a duração de cinco anos e meio, e com as disciplinas já semestrais.

Em segundo lugar, esses anos letivos começavam, de um modo muito geral, pelos finais de Outubro, até por existirem entre o fim de Setembro e o meio daquele mês os exames da designada segunda época, hoje extinta, ao menos, nas universidades públicas.

Em terceiro lugar, era muito maior a facilidade de estudar para as frequências – era a designação do tempo – e para os exames finais, porque os elementos de apoio ao estudo eram as históricas sebentas, feitas ao policopiador e muitíssimo baratas, ao contrário do que hoje acontece, onde é possível encontrar, só para um disciplina semestral de certo curso, dois volumes de uma mesma obra, com o custo de cerca de dezasseis contos, ainda em moeda antiga.

Em quarto lugar, a generalidade dos cursos de licenciatura dos nossos dias, sobretudo no ensino superior público, começa pelo meio de Setembro, com testes e/ou exame final, conforme os casos. Para lá desta realidade, as matérias são muito mais vastas e os elementos de estudo muitíssimo mais caros. Tal como se dá, por igual, com o valor das propinas. Pude já explicar, num escrito deste tipo, que Antunes Varela, nunca poderia ter feito a carreira que fez nos dias de hoje, para o que basta pensar um pouco e ter algum conhecimento sobre a nossa vida pública.

Finalmente, a lamentável realidade dos nossos dias: estuda-se uma vastidão de matérias, seja nos cursos atuais de licenciatura, seja nos de mestrado, seja, ainda, nos de pós-graduação, sendo que muitas dessas matérias para pouco ou nada servem. Em todo o caso, estudam-se hoje muito mais temas e de um modo muito mais vasto. Tudo se tornou pior para os alunos e futuros profissionais. De resto, naquele tempo ninguém se preocupava em saber se os jovens licenciados sabiam ou não as matérias que haviam estudado, sendo que emprego era coisa que não faltava, e por todo o território português do tempo. A prática profissional, posterior aos cursos de licenciatura, era, essa sim, um autêntico novo curso. O grande curso da vida profissional.

Apenas a título de curiosidade, seria interessante operar um estudo sobre as classificações atribuídas pelo Professor Edgar Cardoso na sua disciplina de Pontes e Estruturas Especiais, porque na sua generalidade não eram muito altas, bem pelo contrário. E não eram inusuais ameaças suas, em plena oral, dizendo que se viesse a saber que o aluno estaria a assinar o projeto de uma ponte no futuro, iria lá explicar que o aluno nada sabia sobre pontes. A verdade, claro está, é que muitos desses alunos assinaram projetos de pontes, ou foram responsáveis pela sua construção, sem que nenhuma obra tenha caído. Um domínio onde certos casos públicos do nosso tempo nos fariam pensar e sorrir longamente.

 


 
 

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