A nomeação de António Indjai como líder das Forças Armadas da Guiné-Bissau surpreendeu elementos da Comissão da ONU para a Consolidação da Paz no país, e veio levantar dúvidas sobre a independência do Governo face ao poder militar.
"É uma decisão soberana da Guiné-Bissau, mas, por outro lado, é uma demonstração clara de que o Governo civil não tem toda a independência para fazer o que bem entende", afirmou à lusa fonte diplomática da Comissão.
Duas semanas depois da intervenção militar de 01 de Abril, a Comissão chefiada pela embaixadora brasileira junto das Nações Unidas escreveu ao ministro dos Negócios Estrangeiros guineense, pedindo que o novo chefe de Estado maior fosse alguém que não estivesse ligado à sublevação, mas António Indjai foi o protagonista daquela intervenção.
A carta, em que apelava ainda ao Governo guineense para que fosse dado um tratamento justo ao ex-líder das Forças Armadas, o detido Zamora Induta, mereceu uma resposta de Bissau considerada "positiva" pela Comissão, em que inclusivamente era pedida a continuação do apoio à estabilização do país.
Por isso, disse a mesma fonte, a nomeação de sexta-feira "foi totalmente inesperada", e levanta dúvidas quanto à forma de reacção.
"É sempre um debate, [decidir] até onde pressionar o Governo, sabendo que eles não têm o poder para fazer o que estamos a pedir. É uma situação difícil, complicada", disse a fonte da Comissão.
"Ao tomarem essa decisão, [os membros do Governo] sabiam que não agradaria aos parceiros internacionais. Se tomaram, é porque não tiveram opção", adianta.
Nos próximos dias, terá lugar em Nova Iorque uma reunião dos embaixadores dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa junto das Nações Unidas, e se admite ainda que venha a ser convocada uma reunião de emergência da Comissão.
Até quarta-feira, será apresentado o relatório do Secretário-Geral ao Conselho de Segurança sobre a Guiné-Bissau, que será apresentado na próxima semana em Nova Iorque por Joseph Mutaboba, chefe da Missão da ONU e representante do secretário geral em Bissau.
Depois da tentativa de golpe de Abril, a nomeação de Indjai torna ainda mais difícil a realização da reunião internacional de alto nível para a reforma do sector de segurança na Guiné-Bissau, segundo admitem fontes da Comissão.
Para já, refere fonte de outra missão diplomática que integra a Comissão, "a desconfiança não desaparece" e "há uma aproximação ainda mais prudente" ao problema da Guiné-Bissau.
Mas mais do que tomar posições de força, a atitude é "construtiva", para "não agravar os conflitos internos" no país.
Segundo a mesma fonte aponta, Bissau esperava apoio para a nomeação durante a reunião extraordinária do Conselho de Ministros da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental, prevista para hoje(terça-feira) e quarta-feira, na ilha cabo-verdiana do Sal.
Mas sob forte pressão internacional, nomeadamente dos Estados Unidos e União Europeia, esta foi cancelada, adiantou fonte da missão diplomática.
"A realização dessa reunião ratificaria a nomeação" de António Indjai, afirma.
O major-general António Indjai toma posse, nesta terça-feira do cargo de chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) da Guiné-Bissau, segundo fonte da presidência guineense.