À memória do companheiro Armindo Rodrigues
- font size decrease font size increase font size
Pouco tempo depois do seu ingresso no jornal estatal, Armindo foi enviado para Moçambique, juntamente com o seu colega Luís Carvalho, para estudar na Escola de Jornalismo de Maputo. Nessa altura, os dois únicos estudantes desse estabelecimento de ensino de formação de jornalistas, viveram momentos muitos difíceis, tendo em conta a situação reinante naquele país, a braços, nessa altura, com uma guerra civil que tinha impactos terríveis na sociedade moçambicana. Praticamente abandonados à sua sorte e passando por sacrifícios de toda a ordem, Armindo e Luís conseguiram, com muito sacrifício, concluir o curso e regressar ao país.
Aconteceu, porém, que todo o esforço despendido e os enormes sacrifícios consentidos não tiveram a necessária e esperada compensação, uma vez que o diploma que trouxeram de Moçambique não foi devidamente reconhecido pela comissão de equivalência.
Isso fez com que os recém-chegados não tivessem sido enquadrados na categoria que a sua formação justificava plenamente.
Todavia, este facto, embora decepcionante e de muita injustiça, não constituiu motivo de desmotivação, nem de menos interesse e motivação para o Armindo, que se revelou, desde cedo, um indivíduo com um muito bom domínio da língua portuguesa e com uma “pena leve” na elaboração dos textos, o que faziam dele um jovem promissor e com um amplo futuro na profissão que decidiu abraçar.
Com a ampliação da Delegação do “Voz di Povo” em São Vicente, de modo a melhorar a cobertura noticiosa e informativa da região norte do arquipélago, o Armindo pediu para ir trabalhar na sua terra natal onde se juntou ao Abílio Tolentino e ao Américo Antunes.
Lembro-me que foi também nessa altura que as Edições Voz di Povo, então a dar os primeiros passos no caminho da sua informatização, recebeu da UNESCO um conjunto de equipamentos (dois pequenos computadores “Tandy” 102 e respectivos modems) que iriam permitir estabelecer, pela primeira vez, uma ligação directa entre a sede e a delegação no Mindelo, que possibilitava o envio online dos textos, o que antes era feito com recurso ao telex. Como se pode imaginar, aquilo que hoje é feito com um simples click, representou na altura um grande avanço, uma vez que facilitava, e muito, o processo da feitura do jornal.
O Armindo, que rapidamente conseguiu dominar o funcionamento do aparelho, tornou-se então um autêntico especialista do “Tandy”, e era a ele que todos recorriam quando havia alguma dificuldade.
A passagem do Armindo pela delegação de São Vicente foi marcada também por outro episódio que muito deu que falar nessa altura: indicado para fazer um trabalho na ilha de Santo Antão, o jornalista não conseguiu embarcar no barco que fazia a ligação regular entre Porto Grande e Porto Novo. O único recurso que ele tinha para chegar a tempo de fazer a reportagem na data prevista, foi embarcar no navio de pesca “João Cabafume”, que partia para a faina nas imediações da ilha das Montanhas; por ironia do destino, o barco teve uma avaria no motor que o deixou à deriva durante alguns dias até ser resgatado por uma outra embarcação.
Apesar do momento dramático vivido, o Armindo, depois deste episódio, pareceu ter ganho um ânimo redobrado no exercício da profissão que ele abraçou com tanto entusiasmo e dedicação.
De regresso à sede na Praia, o Armindo conheceu e tornou-se amigo do jornalista português Gabriel Raimundo, e do também recém-chegado José Maria Varela, o “Santana”.
Na companhia desses dois companheiros, o Armindo percorreu praticamente todos os recantos da ilha de Santiago, deslocando-se a sítios e povoados onde, nessa altura, só se podia chegar após muitas horas de caminhada a pé. Ele e os seus colegas de aventura, produziram então várias reportagens dessas viagens feitas quase sempre em carrinhas de caixa aberta (ainda não havia os “hiaces” que hoje proliferam nas estradas de e para o interior da ilha de Santiago). Esses trabalhos, publicados, ao longo de várias edições do “VP”, trouxeram para as páginas do jornal estatal o quotidiano de várias localidades então pouco conhecidas do grande público.
Quando surgiu a oportunidade de ir viver com a família nos Estados Unidos da América, o Armindo partiu esperançado de que podia continuar a fazer jornalismo naquele país. De facto, ele chegou ainda a colaborar em jornais e rádios da comunidade cabo-verdiana em Boston e outras cidades do Estado de Massachusetts.
Anos mais tarde, aquando de uma deslocação aos Estados Unidos, na companhia de um grupo de colegas para fazer a cobertura do voo inaugural da TACV do Sal para Nova Iorque, tive a enorme satisfação de me encontrar com o Armindo na sua casa na cidade de Brockton, onde também tive o prazer de rever os amigos Jorge Soares, primeiro director do jornal “A Semana”, e a esposa também jornalista Doralis Castillo.
Foi, como se pode imaginar, um reencontro muito emotivo e agradável, visto que foi momento para falarmos dos companheiros e recordar tanto os bons momentos como também as dificuldades vividas no passado recente.
Confesso que fiquei muito agradado e reconfortado por ter constatado que o Armindo, que entretanto teve de arranjar um outro trabalho que lhe oferecia melhores condições para ele e a família, estava bem, embora um pouco amargurado por ter deixado o jornalismo, profissão que era a sua paixão. Nós que conhecemos de perto e convivemos durante alguns anos com o Armindo Rodrigues, não temos dúvidas nenhumas de que ele, caso tivesse continuado na profissão, seria hoje um nome incontornável no jornalismo cabo-verdiano.
As suas qualidades, não só profissionais, como e sobretudo a forma muito educada e cortês como sempre se relacionava com todos e que o tornava um homem de fino trato, faziam dele uma pessoa muito estimada pelos seus colegas e amigos que, estou certo disse, se sentem hoje profundamente consternados e entristecidos com o seu prematuro desaparecimento físico aos 52 anos de idade.
Com este simples testemunho, quis tão-somente recordar e render a minha humilde homenagem a um profissional competente, a um amigo e colaborador fiel, que deixa em nós muitas saudades.
À esposa Dulce Pinto, ao filho Diego e ao irmão, o nosso prezado colega jornalista Orlando Rodrigues e aos restantes familiares, gostaríamos de, neste momento de profunda dor e recolhimento, expressar os nossos sentimentos do mais profundo pesar por esta perda irreparável.
Por: Carvalho Santos
(Publicado em A Semana)